Será que a espiritualidade deveria ser apolítica?⁣

Absolutamente não.⁣ Bom, vamos lá.


Desde que entrei em contato com o mundo da yoga, meditação, e o que mais entende-se por espiritualidade "new age", por um bom tempo eu fui aquela pessoa totalmente zerada no que se refere a política. Noções completamente superficiais, nunca tinha estudado devidamente o assunto, e acreditava fortemente que isso era tema pra algum outro alguém resolver, estava muito ocupada fazendo minhas meditações, entrando em contato com meu eu interior, e acreditando fortemente que isso bastaria pra uma mudança - silenciosa e espiritual - acontecer. Afinal, eu lia canalizações incansavelmente e sempre foi essa a impressão que eu tive: que meditar e olhar pra mim bastava.⁣

Pois bem, grande foi o choque quando o planeta Terra bateu na minha porta e fui percebendo que não, talvez não seja assim que o nosso tão amado e venerado universo funcione. Aquele sentimento de "estamos indo ladeira a baixo enquanto humanidade" veio, e junto com um ele uma deliciosa boas vindas ao mundo real, das pessoas reais e da vida aí fora, que por mais que houvessem muitas mentalizações, mantras e afirmações positivas, não mudava em absolutamente nada o que existia ao meu redor. Isso é o que se chama também privilégio, poder viver numa bolha e só perceber quando um toque externo te faz cair na real. Então fui observando e reconstruindo muitas ideias que eu tinha acerca da minha espiritualidade. Comecei a entender que não adiantaria ficar fora do ar, eu teria que aterrissar. Nisso, alguns temas começaram a se desenvolver melhor com esse olhar - a ecologia, gênero, raça, e política. ⁣

E fui me dando conta que não seria possível voltar pro mesmo lugar que eu estava antes, alienada e nem aí pra política. Entendi, enfim, que aquele papo de união e "somos um" vale pra isso também. Afinal, nos conformamos enquanto sociedade, e dentro disso, nosso existir no mundo é político.


Se você é mulher e escolhe a roupa que você usa, isso é político. Se você é preta e precisa de um emprego, isso é político. Se você é indígena e tem que defender o lugar que você mora, isso é político. Se você é trans e você tá viva, isso é político. Se você tem uma casa, comida e opção de vida, isso é político. Pra mim política era aquela coisa chata, de gente engravatada, cheio de sigla e nome difícil. Mas política é viver e afirmar seus pontos de vista. E o que a espiritualidade tem a ver com isso?⁣

Afinal, não vamos misturar as coisas, né?⁣

Sim, nós vamos. Primeiro que quando eu falo de espiritualidade, falo de algo não sectário, mas vale lembrar que a religião sempre se misturou com política - aquele papo de o líder político e o líder religioso serem o mesmo cara, e por aí vai. A questão é que quando eu olhei pra existência de tantas pluralidades e corpos no mundo, perdeu sentido a espiritualidade se abster desse diálogo. São duas forças que parecem se opor, a espiritual e a material. Mas são em realidade faces da mesma moeda, e devem, necessariamente caminhar juntas. Usar da espiritualidade pra fazer o bem na sociedade, e a política para humanizar a espiritualidade. ⁣

Isso é sobre visão de mundo. Não é "todos deveriam meditar" ou deveriam fazer qualquer outra coisa considerada espiritual. Pra mim o que mais se aproxima desse conceito é, na realidade, a nossa capacidade de ser humano. Olhar o próximo, empatizar pela dor do outro e pela dor do mundo e fazer algo em direção a uma transformação comunitária. A gente se acostumou a privatizar as nossas dores. Tudo vem do Eu, do indivíduo. Mas esse indivíduo, a não ser que viva numa caverna na montanha, vive em um contexto comunitário. E se esse contexto comunitário não vai bem, dificilmente o indivíduo estará 100%. Isso porque Carl Gustav Jung nos falou sobre um tal inconsciente coletivo, e é bastante esperado que se estamos todos isolados por causa de uma pandemia, enquanto um presidente é irresponsável com a sua população, e estamos sempre com medo do que pode acontecer, e estamos sempre com medo do que pode acontecer, e o mundo inteiro se encontra numa tensão muito semelhante, espera-se que tenhamos sintomas de ansiedade, depressão, desespero, em maior ou menor grau. A espiritualidade não pode ser um paleativo pra gente fazer afirmação positiva, mudar nossas "crenças" e acharmos que está tudo bem. Não está. Está tudo péssimo com prognósticos desanimadores. A espiritualidade tem que servir pra reconhecermos nosso centro, e sabermos retornar a ele, e usar todo o sentimento para realizar algo. Criar ou apoiar iniciativas que ajudem as comunidades, apoiar os povos originários que defendem seus territórios e guardam as medicinas da floresta, e usar todo esse discurso bonito e os privilégios para construir algo bom que saia do nosso umbiguinho dourado. ⁣

Não é alguém que vai resolver a política por nós. A espiritualidade não vai ficar trabalhando numa guerra astral enquanto a gente senta e medita num monte de coisa que a gente mal sabe lidar. É arregaçar a manga e fazer a coisa acontecer mesmo. Eu acreditava que me trabalhar internamente bastaria. Mas percebi que não é só isso. Viver e agir é muito mais valioso. E não é só pelos outros não, é por si também. E isso é político. Quando eu apoio verdadeiramente alguma causa - e por apoiar verdadeiramente eu falo de estar junto, de ter vínculos, etc - eu estou fazendo muito. E posso seguir meditando, fazendo o que eu achar que preciso fazer, mas entendendo que no momento que eu assumo um ponto de vista, eu assumo uma postura política.⁣

E se meu ponto de vista da espiritualidade defende que alguns devem morrer pra que a humanidade entre na nova era, se meu ponto de vista da espiritualidade é eugenista e só defende meus próprios privilégios, é preciso rever urgentemente esse olhar. A quem te serve a sua espiritualidade?⁣

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